Duas listras

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Duas listras mudaram completamente a minha vida. Uma ao lado da outra elas sinalizavam positivo para uma gravidez. E assim eu descobri que não era somente uma. Dentro de mim havia mais de uma vida, uma pessoa completamente nova e entregue aos meus cuidados a partir dali.

Desde esse dia eu descobri que gestação é chegada. Nove meses e o bebê vai chegando aos poucos. No início, pra mim, ele chegou em forma de náuseas, mal estar, muito sono, cansaço, desânimo. No correr das semanas a chegada transformou-se em emoção a cada nova ultrassom. As batidas do coração e o mover do bebê tornavam palpável o que antes era abstração.

Depois foi a hora de saber o sexo: menina. Escolher um nome: Carolina. E a abstração revestiu-se de cores, entusiasmo das pessoas que me rodeavam e uma emoção latente dentro em mim. Eu serei mãe.

Há dias bons, onde os sintomas de chegada se anunciam de forma não invasiva ou dolorida, onde as perspectivas se anunciam boas. Há dias de dores físicas e emocionais, de medos, lágrimas, incertezas.

A gestação é chegada. E a cada novo abrir das portas e janelas dentro dentro de mim pra receber esse novo ser me sinto diferente. Sinto minha visão expandida. Passei a entender que as chegadas aos poucos nos preparam para nosso encontro. Em breve nascerá Carolina. Em breve nascerei como mãe. Nos reconheceremos nos nossos novos papéis, nos acolheremos. Nascimento é encontro.

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Direito ao desgosto

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Não gosto de poesia. Tampouco de quadrinhos. Mas leio às escondidas. Superficialmente, julgo eu, sei conversar sobre os dois sem passar muita vergonha diante de quem gosta e/ou notadamente domina mais o assunto do que eu. O que não quer dizer que aprecie. No que consiste apreciar?

Semana passada um amigo me irritou questionando meu desamor por quadrinhos. O mesmo amigo já havia rechaçado meu desgosto por poesia, inclusive costuma falar comigo sobre o assunto como se eu fosse grande entusiasta dele. Fui dormir irritada com isso. Desgostar é um direito. Nem tudo nos salta aos olhos, nem tudo faz dentro em nós uma casa. Diante de tantas coisas que me empolgam verdadeiramente, me fazem passar dias em transe apaixonada, por que me ocupar justo do que não me provoca absolutamente nada disso?

Não tenho respostas. Mas defendo o direito ao desgosto. Desgoste de poesia você também! Não sem antes conhecer Ana C, Leminski, Chacal, Manoel de Barros, Ana Guardalupe. Odeie quadrinhos, mas leia Persépolis e Frango com Ameixas. Não passe largo de Retalhos e não devolva à prateleira sem ler o Palestina, de Joe Sacco. Mas resguarde em si o direito, um íntimo prazer, em não guardar dentro em si um sabor especial para quaisquer desses autores ou livros. Desamor é prazer também, ora.

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‘Persépolis’, de Marjane Satrapi

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Li Persépolis há algumas semanas e o livro ainda não me saiu da cabeça. Tanto que ainda não consegui começar nenhuma nova grande leitura. Basicamente tenho passado o tempo que poderia estar lendo outros livros pesquisando elementos do Persépolis: Irã, cultura iraniana, obrigatoriedade do uso do véu para as mulheres, revolução e ditadura.

Persépolis é o relato em forma de história em quadrinhos de Marjane Satrapi, ilustradora e escritora iraniana. Nele, Marjane conta sua história e consequentemente um pouco da história do Irã por meio de desenhos de seu próprio traço. O título é uma referência à denominação da antiga capital do império persa, onde hoje está situado o território do Irã.

A história do Oriente Médio me instiga. Pelo choque cultural com o Ocidente, onde nasci e me criei e donde nunca saí. A história de Marjane, especificamente, me seduz e desperta curiosidade por ela ser uma transgressora dos limites da ditadura iraniana e uma questionadora dos ditames.

O traço de Marjane traduz a atmosfera de animosidade do Irã em tempos ditatoriais e conta as agruras de uma sociedade repressora onde ela não se encaixava e tentava subverter. Em quadrinhos ela relata situações, confusões, suas retiradas do país e a dificuldade de se encontrar em culturas mais permissivas, o retorno ao Irã, as mudanças políticas, seus dramas pessoais, casamento, separação, faculdade, trabalho, encontros e desavenças.

Em 2007 o livro virou filme de animação também no traço de Marjane. No mesmo ano foi indicado ao Oscar de melhor filme de animação, mas acabou perdendo a estatueta para Ratatouille.

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Sobre retornos

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Sobrevivi a uma turbulência.

Não, não se trata de viagens de avião. Há tempos não entro em um, para ser bem sincera. Por turbulência entenda-se o final da minha faculdade de jornalismo, que se arrastou pelos últimos sete anos de minha vida.

O último semestre da faculdade foi um tanto caótico, mas encontrou seu fim e agora há tempo em minha rotina para literatura e as demais peças que compõem o Mosaico deste blog.

Estamos oficialmente de volta aos trabalhos.

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BLACK PANTER, UN EVENTO CULTURALE PROFONDAMENTE AMERICANO

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Nei crediti di Black Panther troviamo Hannah Beachler (scenografie), Debbie Berman (montaggio), Ruth E. Carter (costumi), Megan Flood (effetti visivi), Sarah Halley Finn (casting), Rachel Morrison (fotografia, prima donna candidata all’Oscar per Mudbound). Nella storia, T’Challa, re di Wakanda, porta in missione due guerriere, mentre a casa sono rimaste la sorella, geniale inventrice, e la regina madre, componente di un’assemblea fatta per metà da donne. C’è una ragazza anche tra gli antagonisti, ma Erik è talmente accecato dall’odio da non concederle nemmeno una parola: solo un proiettile.

Questa visibilità femminile è una delle caratteristiche più interessanti nell’epoca del Time’s Up, specie in un blockbuster da duecento milioni di dollari che corona l’altro grande movimento del recente cinema americano, esploso due anni fa con la polemica di OscarSoBlack.
Lorenzo Ciofani

Se da una parte la ricezione italiana rischia di derubricarlo ad ennesimo cinecomics dello scatenato universo Marvel, dall’altra tende a non cogliere quanto si tratti di un evento culturale profondamente americano che quasi prescinde il film in sé e puoi guardarlo online. Qualcosa di analogo a quanto accaduto con Wonder Woman (guarda la video recensione). Come Patty Jenkins, Ryan Coogler rappresenta una precisa scelta politica, con le radici nella coscienza civile della sua comunità (le pantere nere degli anni Sessanta…). Tant’è che l’imbarazzante CGI finisce per non svilire davvero il risultato finale.

Individuando le coordinate nell’esaltazione del sontuoso apparato visivo e la cifra sonora identitaria (percussioni sudafricane e senegalesi e brani di Kendrick Lamar), prosegue nel solco dei precedenti lavori: se in Prossima fermata: Fruitvale Station denunciava la violenza razzista e in Creed rinnovava l’epica del riscatto, qui fa coincidere le due istanze in un’ulteriore riflessione su cosa voglia dire essere, oggi, afroamericani, delegando ai suoi supereroi il dovere di rendersi visibili per occuparsi delle sorti di un mondo pronto ad una infinity war.

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‘Os enamoramentos’, de Javier Marías

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O escritor espanhol Javier Marías tem 41 anos de carreira e 13 romances publicados, dos quais eu não havia lido um sequer. Apesar de toda a fama de grande escriba que Marías carrega por ter publicado obras tidas como memoráveis, dentre elas a trilogia ‘Seu rosto amanhã’, só com o lançamento de ‘Os enamoramentos’ me senti seduzida a conhecer a literatura dele.

‘Os enamoramentos’ me saltou aos olhos por sua capa bonita e título que sugeria uma bela história de amor. Trouxe um exemplar pra casa sem saber muito o que me aguardava.

Longe de ser uma novela água com açúcar sobre amor, ‘Os enamoramentos’ é uma trama construída com bases na admiração, no desejo, nas meias-verdades e no infortúnio. A voz narrativa da trama, María, conta sobre sua admiração por um casal que diariamente observa em uma cafeteria de Madri. Considera-os exemplo de perfeição e êxito em matéria de relacionamentos, até que um dos dois é friamente assassinado.

Trata-se de uma história sobre amor, não uma história amorosa. ‘Os enamoramentos’ a que Marías se refere no título do livro não remetem apenas ao casal Miguel e Luísa, dignos de observação da narradora María. Remetem também aos envolvimentos amorosos dela própria, que apresentam ao leitor uma gama periférica de novos personagens para além do casal enamorado.

Duas coisas muito me agradaram neste livro: uma é a construção da narrativa em capítulos curtos, que dá um ritmo acelerado e instigante ao relato. Outra é a metaliteratura de Marías, que faz referência a obras dos franceses Honoré de Balzac e Alexandre Dumas para explicar um pouco mais do título do livro, e também para delinear um pouco melhor a personalidade da personagem María, que trabalha numa editora de livros e é bastante afeita à literatura.

A trama é conduzida de modo que o leitor não consegue mensurar o novo fato que virá ao fim de cada página. A história que inicialmente parece querer contar sobre o aspecto romântico e idealista do amor revela também a faceta cruel, egoísta e maniqueísta dele, quando nos é apresentado o personagem Javier Días-Varela, amigo do casal Miguel e Luísa, com que María se envolve numa relação frívola.

‘Os enamoramentos’ surpreende e cativa. Uma vez encantada, desbravarei os outros títulos de Marías.

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