Sobre estar só

Eu e você mais uma vez juntos.

Os mesmos olhares que fingiam indiferença, os mesmos discursos ácidos. Você pediu café sem açúcar, eu pedi chocolate quente. Foi o bastante para que você dissesse algo sobre eu sempre comer as mesmas coisas. Tirei meus olhos dos seus. Você reagiu dizendo que eu era sempre a mesma. Tinha sempre as mesmas desculpas, as mesmas fugas, as mesmas manias. Frisou o quanto te irritavam as minhas distrações cotidianas.

Eu fingia ouvir quase nada do que você dizia. Perdi o olhar observando uma senhora carregar uma pesada sacola de compras. Não te olhava nos olhos. Você esbravejava seus desconfortos. Repetia meu nome. MA-RI-NA. Me pedia atenção.

Abri minha bolsa e procurei meu caderninho pra rabiscar. Essa era a minha mania que mais te irritava. Mas dessa vez você não iria discursar sobre como eu nunca te dava atenção, sobre minha introspecção exagerada. Você não iria repetir o quanto te irritavam meus hábitos de observação, leitura e escrita. Não me diria que isso não me levaria a lugar nenhum.

Abri o caderno numa folha em branco. Eu te amava tanto. Queria escrever sobre nós dois. Olhei teus olhos, vi neles uma frase que seria o início do fluxo das minhas ideias. Caneta em punho, transferi meus pensamentos pro papel. Ou ao menos tentei.

Era uma manhã fria de janeiro. Não ouvia mais teus reclames, o silêncio inundava nossas almas. Na caneta não havia mais tinta.

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