Relatos de um rabiscador

A verdade é que tenho medo de escrever.

Isso porque escrever é desnudar-se. É transcender as emoções do coração pro papel. E depois de vê-las lá depositadas imaginar se estão mostrando menos ou mais do que deveriam.

Há também a batalha com as palavras. Nem sempre elas se posicionam no lugar mais apropriado. São como crianças fazendo algazarra numa fila indiana quando o mais correto seria estarem fincadas ao chão em ordem crescente de estatura. Algo que seria relativamente simples se as palavras – e também as crianças –  não tivessem vontade própria.

Prefiro ler a escrever. Esconder-me atrás de um livro me é mais fácil e agradável. E também existem os segredos que só eu e os personagens e o autor do livro iremos partilhar. Não há essa necessidade de me despir como na escrita. O máximo que a leitura me proporciona é uma identificação com a nudez dos sentimentos do escritor. É aí que o leitor mais preguiçoso se contenta. Ele apenas conserva aspas à esquerda e à direita dos ditos do narrador para definir o que ele mesmo sente e para por aí.

Há os que se angustiam com uma necessidade vinda sabe-se lá de onde de transbordar os próprios desejos em forma de palavras. Me incluo nesse grupo. Transformo todos os dias em oportunidades para ultrapassar as barreiras que impedem minha corrente de sentimentos de fluir. Todo dia me é um esforço para melhorar a construção das frases, para atribuir clareza e sentido aos períodos, para não me render ao eterno escreve-apaga-escreve-apaga, pra não sucumbir aos pensamentos de ‘poxa vida! já escrevi melhor, hoje perdi a prática, perdi minhas técnicas, minhas melhores influências…’. Cada início de dia é um esforço esquecer do que um dia me fez parar de escrever.

Segunda-terça-quarta-quinta-sexta-sábado-domingo: oportunidades para não só me esconder atrás das leituras.

Hoje é sábado. E prossigo.

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