‘O Livro de Areia’, de Jorge Luis Borges

Ano passado tive o privilégio de conhecer Buenos Aires em uma viagem que fiz em família. Ótima experiência. Lá, conheci um argentino chamado Javier, com quem troquei algumas ideias sobre livros.

Quando falei que gostava de literatura argentina, ele rapidamente me perguntou: ‘Mas qual seu time? Julio Cortázar ou Jorge Luis Borges? Não pode gostar dos dois, é contra as regras!’ E rindo, me explicou que alguns argentinos têm o costume de rivalizar Borges e Cortázar. Quem gosta de um, necessariamente não gosta do outro.

Respondi de pronto que meu ‘time’ era Julio Cortázar, escritor que desde as primeiras leituras já ganhou meu amor. [Nota aos curiosos: Javier também era do time de Cortázar.] Além do que, preciso confessar a vocês o que não confessei a Javier: até então eu não tinha lido nada de Borges de forma concreta. Apenas um ou outro conto esparso. Apesar de ter gostado do pouco que conhecia, Borges ainda não conseguia me cativar tanto quanto meu estimado Julio Cortázar.

Isso até que me deparei com esta edição de ‘O Livro de Areia’ editado pela Folha que cobrava apenas 17 reais pra conhecer minha estante. Levei. Era a minha oportunidade de conhecer Borges na inteireza de uma obra a um preço bem bacana.

‘O Livro de Areia’ é uma coletânea de contos ao estilo fantástico que caracteriza a literatura de Borges. Todos os contos têm em comum a característica de imprecisão do tempo. Parecem recortes do imaginário, nada que tenha delimitações claras de início e fim. A leitura de alguns muito se assemelha ao despertar após um sonho sem sentido. Sensação de que algo falta, apesar de tudo estar perfeitamente completo. Tive um carinho especial pelos contos ‘utopia de um homem que está cansado’ e ‘o livro de areia’, que nomina a obra.

Borges é assim: cria situações inimagináveis perdidas no tempo e no espaço, cita livros e autores que não existem, fantasia a realidade, não se preocupa em dar muito sentido às coisas. A leitura de Borges não é simples. Mas não deixa de ser prazerosa ou leve, talvez porque os contos de ‘O Livro de Areia’ não sejam extensos.

Várias vezes durante a leitura do livro imaginava Borges me olhando com um sorrisinho irônico de superioridade. Como se tudo ali estivesse além da minha compreensão e tivesse sido posto de forma a surtir esse exato efeito. Não que isso tenha me incomodado. Ao contrário. Só me dei conta que preciso de mais maturidade literária do que hoje disponho para compreender Borges em sua profundidade.

Fim do livro, digo que Borges é interessante. Vale a leitura pela experiência de ter contato com um outro estilo de ficção, uma ficção com um caráter irreal mais escancarado, digamos assim. Ainda preciso ler mais de Borges pra poder dizer que meu ‘time’, em definitivo, é Julio Cortázar. Mas, por enquanto, deixo os dois em algo parecido com um empate técnico com margem de erro de dois pontos a mais para Cortázar.

Ps: Comentei com um amigo, o querido Carlos Augusto Lima, que estava lendo Borges. Ele comentou comigo que, pelo que conhece dos meus hábitos de leitura, acha que ao conhecer mais a fundo a obra de Borges vou desenvolver um gosto maior por ele do que meu atual gosto por Julio Cortázar. Veremos.

Uma curiosidade: Ao longo da vida Borges, que faleceu em 1986, foi ficando cego. Em razão disso exprimiu seu olhar sobre a cegueira numa frase que se tornou célebre: ‘Os poetas, como os cegos, podem ver no escuro’. O vídeo abaixo [ que achei nas minhas andanças sem rumo pelo youtube], intitulado ‘As ruas de Borges’, é uma homenagem ao escritor argentino, uma tentativa de reconstruir a visão dele [que não podia ver] sobre as ruas de Buenos Aires. É lindo, cheio de sensações. Vale a visita.

Outra curiosidade: Umberto Eco homenageou Borges em seu livro ‘O Nome da Rosa’ quando deu ao personagem Jorge de Burgos o primeiro nome do escritor. O personagem é cego, assim como Borges foi ficando ao longo da vida. Além desse personagem, a biblioteca que serve como plano de fundo do livro é inspirada no conto de Borges ‘A Biblioteca de Babel’, conto que se passa numa biblioteca universal e infinita que abriga todos os livros do mundo.

Leave a Comment

Il tuo indirizzo email non sarà pubblicato. I campi obbligatori sono contrassegnati *