‘O filho de mil homens’, de valter hugo mãe

Conheci valter hugo mãe vendo as palestras da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) do ano passado. Não tive o privilégio de me fazer presente em Paraty quando da ocasião da Festa, mas graças à veiculação ao vivo da programação do evento no site da Flip eu pude conhecer o escritor angolano naturalizado português valter hugo mãe.

Muitas coisas me chamaram atenção em hugo mãe. A primeira delas foi a estética do autor, que só escrevia em minúsculas. A segunda é que o ‘mãe’ de valter hugo não é componente originário de seu nome, mas faz parte dele como uma homenagem do autor à sua própria mãe. A terceira, e mais marcante para mim de todas as características que valter hugo mãe possa carregar, é que este escritor é de uma sensibilidade tão latente e verdadeira como nunca antes eu havia me deparado.

Durante a Flip valter hugo dividiu uma mesa de debates com Pola Oloixarac, belíssima escritora e jornalista argentina, que tem como características marcantes a racionalidade e a frieza. O contraponto com valter hugo, este português de aparência simpática, foi inevitável. Enquanto ele fazia discursos acalorados e cheios de paixão (na ocasião hugo mãe leu um texto que escreveu aos brasileiros. E chorou! Lindinho!), Pola permanecia seca. Apaixonei-me por hugo mãe e seus encantos transbordantes e não tive mais curiosidade alguma por Pola e seus racionalismos.

hugo mãe apresentou na Flip dois de seus livros editados no Brasil: ‘a máquina de fazer espanhóis’ e ‘o remorso de baltazar serapião’. Imediatamente adquiri e li os dois. Esplendorosos! O primeiro, um relato belíssimo e singular sobre o envelhecer. O segundo foi o vencedor do Prêmio Literário José Saramago em 2007, e rendeu a hugo mãe elogios de peso do escritor português José Saramago, que na ocasião do prêmio afirmou que ler ‘o remorso de baltazar serapião’ era como ‘assistir a um novo parto da língua portuguesa’.

Apaixonei-me irremediavelmente por hugo mãe e esperei ansiosamente pelo lançamento desta edição de ‘O filho de mil homens’, que além de matar minhas saudades da literatura de valter hugo mãe, viria com a promessa de me trazer um escritor esteticamente diferente do hugo mãe que conhecia. Neste livro, o angolano-português abandona o uso das minúsculas. (Eu, por apego sentimental e decisão pessoal, não deixarei de grafar seu nome como valter hugo mãe, assim mesmo, em minúsculas).

Comprei ‘O filho de mil homens’ e o devorei em pouquíssimos dias. Logo nas primeiras páginas meu pensamento foi: ‘mas que saudade que estava de ler hugo mãe, meu deus!’.

O livro é belíssimo. Numa temática sobre solidão e companhias, o autor reconstrói o conceito de família e fala sobre preconceitos. ‘O filho de mil homens’ é, sobretudo, um livro que, dentro desse contexto, versa sobre sobre esperanças. O relato, no entanto, não é inocente ou idealizado.

Crisóstomo, um pescador de quarenta anos cujo sonho é ser pai, é o fio condutor da narrativa. A partir dele hugo mãe apresenta personagens que carregam sobre si as dores de suas trajetórias, histórias individuais violadas por tradicionalismos e preconceitos de uma sociedade cruel e individualista.

O domínio da língua portuguesa de valter hugo mãe é impressionante e apaixonante. O autor esmiúça a língua de forma a compor um relato entranhado de poesia e sensibilidade.

‘O filho de mil homens’ é daqueles livros que você lamenta muitíssimo ter que parar de ler para continuar vivendo. Daqueles que dá vontade de mobilizar uma iniciativa popular para que o Congresso Nacional aprove uma lei instituindo a obrigatoriedade de sua leitura por todos os brasileiros. Daqueles que você tem que parar agora o que estiver fazendo para começar a lê-lo.

Ps: Junto com ‘ O filho de mil homens’ está disponível nas livrarias também ‘o nosso reino’, título que a abre a série formada por ‘o remorso de baltazar serapião’ (2006), ‘o apocalipse dos trabalhadores’ (2008) e ‘a máquina de fazer espanhóis‘ (2010). Depois desses últimos lançamentos só falta ser publicado no Brasil ‘o apocalipse dos trabalhadores’.

Ps2: ‘o nosso reino’ já está na minha cabeceira. Em breve resenha dele aqui no blog.

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