‘Leite Derramado’, de Chico Buarque

Chico Buarque merece respeito. Grande compositor da música brasileira, filho do implacável historiador, crítico literário e jornalista Sérgio Buarque de Holanda (autor de Raízes do Brasil, aquele livro de leitura obrigatória a todo e qualquer profissional das ciências humanas, como me ensinou meu pai), cantor e pretenso romancista. (O ‘pretenso’ fica por minha conta)

Devo admitir que apesar de ser um sujeito de muitos predicados e de ter meu respeito em muitas de suas facetas, nunca consegui respeitar o grande Xico Buark (como uma vez grafou meu querido e inesquecível Millôr Fernandes) como escritor e romancista. Lembro que devia cursar o segundo ano do ensino médio quando me caiu nas mãos um livro de nome ‘Estorvo’, que estava indicado para o vestibular da Universidade Federal do Ceará naquele ano. De fato, ‘Estorvo’ era uma denominação que muito bem descrevia a obra. Tinha lido até então poucos livros tão ruins quanto aquele.

Ainda com o objetivo de dar uma chance ao honroso Chico Buarque, li ‘Benjamim’ e ‘Budapeste’, ambos ruins. Ruins diferente de ‘Estorvo’, mas ruins. Os três livros tinham em comum o fato de serem enfadonhos, chatos, cansativos. Os personagens não cativavam, a escrita era frouxa, a vontade de deixar o volume de lado antes do fim era grande. Passada a via-crúcis de ler os três livros de Chico, desisti dele como escritor. Bastava a mim admirá-lo como compositor, muito embora não tenha o mesmo apreço por ele como cantor. (Mas essa já é outra conversa…)

Ouvi muitos elogios a ‘Leite Derramado’, mas minhas experiências anteriores com a literatura de Chico não me permitiam dar um chance a esta nova obra assinada pelo menino Francisco. Nem o fato de ele, em 2010, ter sido agraciado com os Prêmio Jabuti e Portugal Telecom de Literatura.

Isto até que dia desses, numa visita ao quarto do meu menino Júlio, avistei o tal ‘Leite Derramado’ na estante. Júlio teceu elogios ao livro que já tinha ouvido de outras pessoas – dentre elas o jocoso Pedro Philippe, notável habitante do Cariri. Assim sendo, resolvi tomá-lo emprestado por uns dias.

Então…aqui estou para admitir que estou impressionada com o amadurecimento de Chico como escritor. ‘Leite Derramado’, digo a quem quiser saber, é um ótimo livro. A narrativa é bem pensada, a trama é bem costurada, os personagens são enigmáticos e cativantes.

‘Leite’ um relato sobre a ascensão e queda financeira de uma família. Eulálio Montenegro D’Assumpção é o personagem principal da trama, um senhor centenário que está no leito de um hospital vivendo seus últimos dias. Entre delírios de medicamentos, ele conta a história da família outrora abastada para enfermeira, para a filha e para um ouvinte inominado, talvez o próprio leitor. Não há interação entre o narrador e as personagens, todo o livro é um monólogo.

Um personagem incrível do livro é Matilde, a esposa de Eulálio. (O título do livro é uma menção aos aos problemas de amamentação que ela possuía ou talvez remeta ao fato de ela ter abandonado a família deixando uma filha em fase de amamentação, penso eu). Matilde me lembrou Capitu do livro ‘Dom Casmurro’, de Machado de Assis. Uma personagem toda construída embasada nas memórias descontínuas de Eulálio, o que faz o leitor duvidar da índole de Matilde. Assim como Bentinho em ‘Dom Casmurro’, Eulálio é obcecado por Matilde, o que o faz ter uma visão distorcida dela.

Palmas ao grande Chico, agora, finalmente, mostrando que além de talentoso compositor, é plenamente capaz de manusear bem as palavras a fim de construir um marcante romance. ‘Leite Derramado’ vale a leitura.

Um golinho de curiosidade: Diz-se que a inspiração inicial para o livro veio da canção “O Velho Francisco”, lançada em 1987.

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