Fragmentos cotidianos

Muito diz sobre os acontecimentos do meu dia o tempo de duração do banho que tomo ao fim dele.

O de hoje se arrastou lentamente. Teve água com temperatura um pouco mais elevada que o usual, óleos aromáticos e música ambiente. Ainda que baixinho cantarolei twenty ways to see the world (oh-ho) e distraidamente arranhei minhas unhas roídas em minha própria pele enquanto depositava sabonete sob minhas pernas.

Sorri lembrando do nervosismo que me fez roer as unhas hoje à tarde. Enviada às pressas pelos meus editores para averiguar um possível incêndio que teria acontecido na BR-116, foi arrancando pedaços de unhas com os dentes que consegui conter minha tensão diante do inesperado.

Imagino que levar os dedos à boca deve ter denunciado todo o temor que eu sentia aos meus companheiros de saga: o repórter fotográfico e o motorista do jornal que me acompanhavam na busca ao fogo.

Chegamos ao destino: um imenso canavial em chamas. Desci do carro e me pus a percorrer o entorno do local em busca de pessoas que tivessem informações sobre o acontecido. Não tardou quase nada a chegada do momento em que os lacinhos que ornam meus sapatos estivessem cobertos de areia alaranjada.

A sujeira entranhada no meu corpo, o cansaço a pesar nas costas e panturrilhas, o arranhar das unhas na pele, a duração incomum do banho, tudo isso me arrancou um dos meus mais sinceros sorrisos enquanto me fazia limpa novamente.

Encontrar o encanto dos detalhes da apuração jornalística: meu privilégio diário.

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